
Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão. (Caio Fernando de Abreu)

Depois de tanto sofrimento, o que eu mais queria não era me render e criar laços com o amor que eu achava ser para a vida toda. Os anos foram passando e a garotinha que sonhava em viver um conto de fadas foi deixando de existir. Fui sentindo o que realmente era adolescência e minhas vontades eram de sair, curtir, viajar e experimentar coisas novas, conhecer pessoas novas. Não sei exatamente quando que passei a ansiar aventura e desfrutar dos prazeres que a vida nos oferece, mas sei que é pensando dessa maneira que vou chegar mais perto da felicidade. Hoje eu sei como não é bom depositar a nossa felicidade em coisas que não conseguimos fazer sozinhos, como por exemplo amar. É melhor depositar a nossa felicidade em coisas pequenas ou coisas que possamos realizar do que depositar em alguém que você sabe que vai te decepcionar. O foda é que demorei anos para aprender isso e nesse caminho levei vários tombos. Talvez esses tombos foram necessários para o meu aprendizado. Só acho que não deveriam doer tanto. Sendo sincera, eu já esperava que o dia em que eu ia ter uma nova visão do mundo ia chegar afinal a metade de uma vida aqui no Brasil chega aos trinta e seis anos e meio. O que me levou a pensar que o amor da minha vida iria aparecer quando eu ainda tinha quatorze ou quinze anos? Isso é a consequência de assistir demais filmes da Barbie quando eu era criança. Eu só não esperava mudar tanto assim em pouco tempo.

Me tranco no vazio do meu quarto, me prendo no vazio da minha vida. Não quero trazer ninguém para cá. Quero que meu mundo tenha uma única chave cuja só passe pelas minhas mãos. Quero poder entrar e sair quando bem entender. Quero minha casa com as portas e janelas fechadas para que ninguém entre. Não quero intimidade, não quero laços, não quero relacionamentos. Quero encontrar as pessoas enquanto faço minha caminhada matinal na rua, enquanto tomo uma taça de vinho em alguma dessas festas, enquanto faço compras naquele pequeno mercadinho, quero poder cumprimentar todos meus vizinhos de forma simpática, mas que tudo acabe por ali, que nada dure mais que uma fração de segundos, que dure menos que o tempo necessário para sentir vontade de compartilhar minha vida com esse alguém. Não quero amigos, não quero amores. Romance basta em livros, histórias ilusórias bastam em filmes e tristeza basta a que já vive em mim. (julyanar)

Não sei explicar como estou morrendo por dentro, mas sei que estou. Acho que o certo é falar que estou me matando. Suicídio? Não sou chegada nessas coisas. Não seria suicídio porque a denominação disso não se encaixa nessa situação. Suicídio é para quando você faz mal a si mesmo com a intenção de ser levado à morte, é para quando você faz mal a si mesmo e tem consciência disso. O que não é o meu caso. Fui me matando aos poucos e sem saber o que estava fazendo. Foi tentando tirar cada pedacinho de você que tinha na minha vida que acabei tirando toda ela. Foi me preocupando com a vida que acabei disperdiçando todo meu tempo só pensando em como aproveitá-la. Foi deixando tudo para o amanhã que acabei me encontrando com o tarde demais. Foi deixando meus gostos para satisfazer os outros que acabei esquecendo deles. Foi pensando demais que passei a sentir de menos. Foi deixando pra lá demais que acabei ficando pra lá. Foi pensando estar fazendo o melhor para mim que acabei com a minha própria vida. Agora eu me encontro aqui, vazia, sem vida, sem alegria e perdida em um lugar que eu nem sei onde fica e nem sei como fazer para sair daqui. (julyanar)